quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

#11 Dicas de beleza só que ao contrário

O Carnaval se foi, agora de verdade, juro. Com ele, foram também as máscaras, as sujeiras do salão, os cílios postiços, o anoitecer às 20h. Você achou que dormiu uma hora a mais de sábado para domingo, planejando um começo oficial de ano espetacular, quando na verdade prolongou a noite de badalação e, quiçá, dormiu uma a menos. E continuou trombando nas paredes quando o despertador tocou na segunda-feira, dia em que, se olhar-se no espelho já não é tarefa muito agradável, ficou ainda pior com o par de olheiras com que a semana - e o ano - começou.

Neste pontapé definitivo, que muitas vezes é só um encontro com quinas de móveis, algumas coisas são guardadas no armário, como as máscaras da folia. Outras saltam para fora do armário, como as máscaras da folia. Elas são atraídas pelo rosto como imãs, e é muito fácil render-se a essas atrações fatais. Que maravilha acordar com olheiras e, já a caminho da rotina diária, postar-se como uma celebridade imortal. Aqueles fios rebeldes na raiz dos cabelos são facilmente domados por uma chapa quente e ninguém viu, não tem problema. Tudo muito bacana, afinal, a exposição do corpo típica do Carnaval já passou e, tenho certeza, não foi tão complicado assim esconder atrás de roupas, plantas, mares, álcool as gordurinhas localizadas. Cuidar da aparência é legal e tem disso também. Até a página da letra M do Michaelis. "Maquiar: Desfalcar, subtrair parte de."

Como negar e, principalmente, apontar meus dedos aos outros é ainda mais fácil, dessa vez vou me incluir como personagem dessa história e provar que máscara nem sempre é um ornamento meramente de decoração. Acompanhe casos verídicos.



"A minha amiga secreta tem um cabelo claro e bem lisinho..."
Confraternização de fim de ano da empresa. Secador e chapinha.

"Você fica tão bem assim, com o cabelo natural..."
Encontro com uma amiga. Secador, babyliss, bobes e spray fixador.

"Como você está bonita hoje."
Um dia no trabalho. Corretivo e delineador. 

"Nossa, você está doente?"
Fim do dia em casa. Demaquilante, cabelo natural e camiseta de propaganda.



True story. Se você se identificou mas nunca pensou a fundo sobre o assunto, aí vai uma dica de quem usa máscaras (a da L'oréal Double Extend é ótima) mas não esconde o jogo: use as suas quantas vezes quiser e com quem quiser, mas não as encaixe com muita força. Podem ir para a cabeça, mascarar caráter, relações e sentimentos, desfalcar, subtrair parte de outras partes. Aí, me desculpe, mas nem uma tonelada de algodão com demaquilante importado vai conseguir tirar o borrão. Isso está longe de ser uma dica de beleza e cuidados com uma pele com poros limpos e fechados. É apenas um "guarde após o uso". E usar tem disso também.





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

#10 Em feverê tem Carná (e o resto da história)

"Carnaval, desengano
 Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano."

Chico Buarque, Sonho de um Carnaval

Acabou, foliões. A Sapucaí é grande mas já foi percorrida por várias fantasias coloridas e contratempos de sempre, devolvendo para você a programação normal da televisão brasileira, com paredões, personagens rindo e chorando e receitas gostosas de arroz de forno ao parmesão derretido. Para finalizar, posts deprimidos sobre o verdadeiro começo de 2013, com uma boa dose de chantilly. 

(Re)tornar às atividades normais é quase como acreditar nas teorias tendenciosas de fim do mundo: uma válvula de escape. Eu sei, o mundo está péssimo mesmo e um planeta chamado "feriados prolongados" é muito mais legal do que esse. Mas as órbitas naturais continuam com suas leis malucas e aterrissamos no mundo "2013". Bem-vindo a bordo, ex-foliões. Infelizmente, não será possível apagar os bafões da folia, muito menos mentir para a(o) namorada(o) sobre as eventuais fotos dela. Mas acredite: o roxo daquele tombo na beira da praia vai sumir, a taxa de glicose no sangue vai normalizar, um novo final de semana vai chegar e, de quebra, para você, estudante, o RH daquela empresa vai te contatar. Sempre há uma luz no fim do túnel.

Mas, cuidado - ainda restam 300 dias para a próxima esbórnia. Nesse meio tempo, não queira emagrecer comendo "só mais um brigadeirinho", ser promovido fazendo "só mais um basiquinho" e sendo amado "só mandando uma mensagenzinha". É como escrever, ou pelo menos tentar, nos aparelhos tecnológicos da Apple: não deixe que "Hahaha" se transforme em "Havanna", "Hehehe" se transforme em "Envenene" e, o que é muito pior mas já aconteceu, "ja" se transforme em "ejaculação". Para isso, limpe primeiro seu bolso para ter um desses aparelhos. Depois a sua mente, que depois do Carnaval está cheia de confetes. Em terceiro, sua lista de contatos, para não cometer nenhum equívoco mais grave do que o normal. E, por último, o seu quarto, para ter tempo de fazer tudo isso sem se preocupar em chegar em casa e encontrar um ninho de ratos e baratas. Mas o mais importante: limpe seus fantasmas e faça com que a sua sombra só apareça em um dia ensolarado na beira do mar. Sim, pode fazer coraçõezinhos com as mãos e postar no Facebook. Desde que não apareça o beicinho, por favor.

Sermões de auto-ajuda à parte, mas você tem teclas o suficiente para apagar a correção ortográfica-automática-inconveniente em vez de dar um "enter" no que escreveu. Pense antes de enviar oficialmente uma mensagem que saiu da sua cabeça, que pode estar ainda cheia de confetes, serpentinas e sprays grudentos. Limpe o salão, folião - todos que você julgar necessário - e encare a programação televisiva, os percalços da sua viagem de metrô/ônibus e a pele descascada do seu bronze carnavalesco como apenas um passo para reabrir as portas para outras folias. É tudo uma questão de querer, e fazer. E querer e fazer tem disso também.






quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

#9 (Re)viver para ver

30 de setembro, Dia da Saudade.

Tenho saudade da época em que tinha mais tempo para blogar, para assistir à Sessão da Tarde, para mofar o dia todo em uma cama ao lado de um bom livro. Saudades de levar uma lancheira com sanduíche de queijo para a escola, de esperar pela entrega de uma prova de biologia, de não precisar ativar meu despertador só para poder esperar minha mãe me acordar com aquele jeito irresistível: "Filhote, está na hora  de acordar." Fazendo cafuné assim no meu cabelo e com a luz ainda apagada? Hm, acho que estou terrivelmente doente hoje.

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença", já dizia Clarice. A piada do avô pode ser recontada, o gosto da jabuticaba no pé pode estar no seu quintal e o cheiro do cabelo e das roupinhas da Barbie, ainda guardado no seu armário empoeirado. Embora a graça não seja a mesma, todos os dias estamos, inconscientemente, armazenando experiências que um dia também darão saudade. Não uma saudade oca, vazia, mas um lembrar-se e viver-se constantemente.

"Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda", continuava Clarice. Talvez não se tenha parado para refletir que, nesse dia e nos demais que virão, 235 pessoas tiveram suas lembranças transformadas em cinzas. Famílias e amigos, ao tentar recolhê-las, somaram-nas às que já possuem e cravaram-nas no peito como brasa. Para eles, a saudade ficou concentrada em corações partidos e doem nos da humanidade. E essa saudade oca, vazia - essa, sim -  tem por dentro um corpo brutalmente velado. A vida tem disso também.

Diante da tristeza Santa-Mariense, a lista de voluntários encontra-se em espera, o número de postagens de luto nas redes sociais multiplica-se, as orações às famílias das vítimas ecoam pelo mundo, os cuidados com a segurança em ambientes fechados são reforçados e o processo de julgamento dentro e fora dos tribunais enerva-se para reconstituir a causa do incêndio. Em outras situações, a dúvida e o sentimento de impotência diante do mundo predomina.

Nesse dia, porém, eu convido a todos que queiram me acompanhar a olhar para o próprio coração e cuidá-lo. Não parando de fumar, correndo 10 km ou retirando a gordura da dieta. Cuidando-o como se ele fosse único, porque o é, e o cérebro é apenas um auxiliar no armazenamento dos filmes da sua vida. Olhe para ele e veja como ainda se acelera de paixão, ainda pulsa de fadiga e ainda aperta de ansiedade. Ainda dói? Viver dói. Mas é vida em uma criatura vermelha que bate e, assim como as águas do rio de Heráclito nunca são as mesmas de um minuto para o outro, o sangue que por ela corre traz, a cada pulsação, uma nova dose de oxigênio e força para continuar. É isso que vamos fazer hoje: continuar. Continuar trabalhando, estudando, caminhando, lendo, comendo, sentindo saudades, dores nas costas e desejos. E aqui não estou falando de "antes que seja tarde". É apenas um "viva". E viver tem disso também.