30 de setembro, Dia da Saudade.
Tenho saudade da época em que tinha mais tempo para blogar, para assistir à Sessão da Tarde, para mofar o dia todo em uma cama ao lado de um bom livro. Saudades de levar uma lancheira com sanduíche de queijo para a escola, de esperar pela entrega de uma prova de biologia, de não precisar ativar meu despertador só para poder esperar minha mãe me acordar com aquele jeito irresistível: "Filhote, está na hora de acordar." Fazendo cafuné assim no meu cabelo e com a luz ainda apagada? Hm, acho que estou terrivelmente doente hoje.
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença", já dizia Clarice. A piada do avô pode ser recontada, o gosto da jabuticaba no pé pode estar no seu quintal e o cheiro do cabelo e das roupinhas da Barbie, ainda guardado no seu armário empoeirado. Embora a graça não seja a mesma, todos os dias estamos, inconscientemente, armazenando experiências que um dia também darão saudade. Não uma saudade oca, vazia, mas um lembrar-se e viver-se constantemente.
"Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda", continuava Clarice. Talvez não se tenha parado para refletir que, nesse dia e nos demais que virão, 235 pessoas tiveram suas lembranças transformadas em cinzas. Famílias e amigos, ao tentar recolhê-las, somaram-nas às que já possuem e cravaram-nas no peito como brasa. Para eles, a saudade ficou concentrada em corações partidos e doem nos da humanidade. E essa saudade oca, vazia - essa, sim - tem por dentro um corpo brutalmente velado. A vida tem disso também.
Diante da tristeza Santa-Mariense, a lista de voluntários encontra-se em espera, o número de postagens de luto nas redes sociais multiplica-se, as orações às famílias das vítimas ecoam pelo mundo, os cuidados com a segurança em ambientes fechados são reforçados e o processo de julgamento dentro e fora dos tribunais enerva-se para reconstituir a causa do incêndio. Em outras situações, a dúvida e o sentimento de impotência diante do mundo predomina.
Nesse dia, porém, eu convido a todos que queiram me acompanhar a olhar para o próprio coração e cuidá-lo. Não parando de fumar, correndo 10 km ou retirando a gordura da dieta. Cuidando-o como se ele fosse único, porque o é, e o cérebro é apenas um auxiliar no armazenamento dos filmes da sua vida. Olhe para ele e veja como ainda se acelera de paixão, ainda pulsa de fadiga e ainda aperta de ansiedade. Ainda dói? Viver dói. Mas é vida em uma criatura vermelha que bate e, assim como as águas do rio de Heráclito nunca são as mesmas de um minuto para o outro, o sangue que por ela corre traz, a cada pulsação, uma nova dose de oxigênio e força para continuar. É isso que vamos fazer hoje: continuar. Continuar trabalhando, estudando, caminhando, lendo, comendo, sentindo saudades, dores nas costas e desejos. E aqui não estou falando de "antes que seja tarde". É apenas um "viva". E viver tem disso também.
