Quais são seus planos para 2012? Malhar meia hora todos os dias? Ler mais livros sobre Filosofia? Dar mais atenção às causas sociais? Parar de fumar ou de beber? A solução para as promessas mal cumpridas nunca foi tão simples. É rápida, divertida e exige apenas custos com óleo, sal e, se preferir, azeite a gosto. Descubra como.
No dia 21 de Dezembro, férias e Natal são palavras que, como ímãs, unem-se desesperadamente. Mês das festas de fim de ano, é uma época em que geladeiras e armários são abastecidos às custas de mercados infrequentáveis, cartões de crédito devastados e sentimentos revolucionários de renovação do corpo e da alma.
Muito bem guardados e escondidos de filhos, sobrinhos e netos curiosos, deliciosos e suculentos pernis e lombos esperam o forno para o cardápio da ceia. Na grande noite, famílias reúnem-se à mesa para degustar pratos com gosto de Dezembro, esmigalhar farelos na toalha tão cuidadosamente engomada, pensar sobre solidariedade e assistir ao show do Roberto Carlos enquanto o relógio conta regressivamente as últimas energias de crianças exasperadas pelos presentes ganhados.
Por esses entre outros motivos, viradas de ano costumam ser uma orgia gastronômica, como uma espécie de consolo para as promessas que transformarão abdômens ainda em Janeiro. Esses rituais, no entanto, tornam-se ultrapassados depois de uma inovação feita na Holanda. Dois apresentadores do programa de TV 'Test Rabbits' participaram de uma degustação um tanto quanto diferente: provaram a carne um do outro. Dennis Storm e Valerio Zeno tiveram, cada um, pequenos pedaços de músculos retirados cirurgicamente da nádega esquerda e do abdômen. Os filés foram submetidos ao preparo de um chef e devorados pelo amigos, que mantiveram-se olhos nos olhos durante a refeição.
A ideia causou controvérsias no país e certamente revertérios em estômagos. A necessidade proteica do corpo humano de repente dota-se de um caráter animal e canibal. Simples pedaços de carne de evoluções de macacos passam a causar, ao mesmo tempo, ásco, cumplicidade e dinheiro. Provar o gosto das nágedas do parceiro em rede nacional transforma-se em uma poderosa fonte de renda, de audiência e de sorrisos para as câmeras.
Segundo os apresentadores, embora a sensação tivesse sido estranha, a cicatriz renderá boas histórias. Dois amigos lembrarão-se de que foram companheiros, de que provaram a mais inusitada ceia de Natal, de que receberam o ganha-pão do mês e de que não foram mais beijados pelas esposas. Esse é o verdadeiro sentimento natalino de solidariedade, em que comer uma barriga, além de rica em proteína, é uma prática de parceria e de multiculturalismo, digna de um ritual indígena.
Substitua agora mesmo os pernis e lombos por saborosos abdômens e nádegas, temperados com óleo, sal e azeite a gosto e regados a puras e verdadeiras uniões carnais à mesa. Adicione uma colher de velhas piadas do tio, meia xícara de latido crescente dos cachorros e uma lata de música da Globo condensada. Sirva ainda quente e ganhe notabilidade na mídia.
Degustar a nádega e a barriga do amigo: tem disso também?
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
#3 Vexames na Casa de Deus
Você saberia explicar o que é a loucura?
Perguntas como essa nem sempre são respondidas, e o termo muitas vezes suscita polêmicas entre racionais extremados do ramo da saúde e psicológicos do setor social. No entanto, o que não nos falta são exemplos, sempre no topo das notícias mais lidas na mídia.
Perguntas como essa nem sempre são respondidas, e o termo muitas vezes suscita polêmicas entre racionais extremados do ramo da saúde e psicológicos do setor social. No entanto, o que não nos falta são exemplos, sempre no topo das notícias mais lidas na mídia.
Um dos destaques da semana é um verdadeiro caso de polícia. Um belo dia de primavera e um noivo surtado marcaram um casameno que virou um pesadelo. Em uma cidade do interior de São Paulo, onde o matrimônio tinha tudo para vingar, ninguém esperava que durante um momento tão doce e poderoso como a entrada da noiva na igreja o rapaz tirasse o paletó, saísse correndo porta afora e tivesse uma série de surtos psicóticos. Porém, foi o que convidados e família assistiram de camarote.
Após bater freneticamente a cabeça nos muros da rua, o noivo enlouquecido foi capturado por enfermeiros e empurrado às forças para dentro de uma ambulância rumo ao hospital. Durante o trajeto, cometeu várias tentativas de agressão, que continuaram ao chegar no centro hospitalar.
O drama seria até cômico se a história parasse por aí. A partir de então, no entanto, ficou mais cômico ainda. Enfurecido, o noivo tirou as roupas e, vencendo a parafernália médica que o segurava, correu pelos corredores do hospital completamente nu. O pavor assolava o local a cada vez que cessava o efeito dos sedativos: era hora de atacar. Em um dos momentos de agressão e de verborragias, ele tentou estrangular um enfermeiro com fios, usando tamanha força, que o funcionário chegou a ficar desacordado duas vezes, conseguindo, enfim, salvar-se.
O drama seria até cômico se a história parasse por aí. A partir de então, no entanto, virou uma trágica epopeia mental e matrimonial. Como os surtos continuassem, o noivo foi levado para um hospital psiquiátrico, onde, segundo fontes, permanece até agora. Os jornais informam o estado do paciente, mas por trás das cortinas há uma noiva desolada e uma família confusa. Muitas são as indagações sobre a condição emocional dessas pessoas, que varia entre tristeza, desespero, raiva e piedade. É impossível, no entanto, chegar a sequer alguma conclusão sem que se fosse a figura central da cerimônia: uma moça de véu e grinalda, vestindo um longo branco de aluguel caríssimo e esperando ansiosamente pela bênção de Deus.
Incidentes como esse fazem com que oscilemos entre a racionalidade do ramo da saúde e a psicologia do setor social. Terá sido uma crise esquizofrênica explicada através de termos biológicos e sinápticos ou um reflexo de problemas internos não resolvidos? Ambas as opções podem estar interligadas, porém a solução mais convincente insiste em ser um tratamento mental. Pequenas sementes abafadas não foram permitidas se desenvolverem, até que, clamadas por Deus para que abençoasse o fruto, atravessaram camadas e extensões e bombardearam ordens motoras, obedecidas por um homem perdido. Arrancaram-lhe as roupas, as esperanças e as possibilidades de um casamento feliz.
O drama seria até trágico se a história parasse por aí. A partir de então, no entanto, virou um ponto de interrogação. Final feliz ou triste, no interior ou na capital, com ou sem surtos, é preferível analisar todos os tópicos antes do grande dia. Sementes podem ser invisíveis a olho nu, mas são perceptíveis ao coração. Por isso, se for casar, observe se a semente do parceiro dará frutos a uma linda e colorida orquídea ou a uma pavorosa planta carnívora dando um verdadeiro vexame em plena Casa de Deus. Apesar de lenta, movimenta os pequenos dentes com tamanha feiura, que um grande amor pode ser escondido debaixo de uma terra molhada e cheia de moscas mordiscadas. Não seria nada agradável.
E a pergunta que não quer calar. Noivo surtado e pelado: tem disso também?
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
#2 Na ponta da língua ou dos dedos?
Você precisa escrever um texto. Abre um novo arquivo do Word e começa a obra. Tecla sem parar, sob influências de uma inspiração divina e com a sensação de estar se superando nos vocabulários, conjunções, vírgulas e vozes passivas. Encaixa aquela palavra dificílima que acabou de aprender, utiliza metáforas, hipérboles e orações subordinadas como um poeta. De repente, olha para o computador e vê pequenas minhocas vermelhas flutuando sobre a tela, uma verdadeira denúncia de que você, entre outros equívocos, escreveu "ressucitou" em vez de "ressuscitou".
Como proceder para que erros como esse não aconteçam? Apelar para a ajuda de um dicionário? Contratar um professor particular de português? Parar de escrever para evitar uma humilhação em público?
Parece que especialistas solucionaram o problema. Em pleno século 21, muitos anos após o fim das mirabolantes técnicas de correção de comportamento escolar, não é mais preciso ajoelhar no milho. Muito mais moderno do que isso, o seu próprio teclado agora tem pleno poder de castigar escritores amadores de plantão, através de um simples aviso: um choque nos dedos.
Corrigindo cada palavra errada, a tecnologia, que chega ao Brasil em menos de 30 dias, tem como objetivo reduzir o analfebetismo. A mecânica da correção, no entanto, não é tão simples como a minhoca vermelha sob as palavras. O choque disparado pelo teclado possui alguns níveis. Isso significa que se o erro for muito grotesco, a descarga elétrica será maior. E se o texto for recheado de vários erros grotescos, o sujeito poderá morrer eletrocutado.
A última frase foi dita pelo criador do teclado às gargalhadas, mas o tema atinges raízes mais profundas do que se imagina. Conhecer uma inovação moderna que corrige erros ortográficos significa analisar a própria educação. Em termos sociais, seria possível dizer que a única diferença entre o choque nos dedos e a palmatória nas mãos é a presença de uma autoridade. Em ambos os casos, o problema é resolvido pela consequência e não pela causa. Faltam questionamentos sobre as origens dos erros, sistemas eficazes de ensino e diretrizes que visem ao desenvolvimento de hábitos de estudo. Afinal, o aperfeiçoamento das faculdades físicas e intelectuais e morais do ser humano, como define o dicionário a palavra educação, não ocorre através de simples e doloridas descargas elétricas nos dedos.
De qualquer forma, ainda fica o deslumbramento de ver a civilização ultrapassando marcas inimagináveis na tecnologia. Quando pensa-se que não há mais nada que inventar, chega ao mundo o dispositivo que obriga os preguiçosos a checar melhor o que estão escrevendo.
Teclado que dá choque: tem diço também? Ai!
Como proceder para que erros como esse não aconteçam? Apelar para a ajuda de um dicionário? Contratar um professor particular de português? Parar de escrever para evitar uma humilhação em público?
Parece que especialistas solucionaram o problema. Em pleno século 21, muitos anos após o fim das mirabolantes técnicas de correção de comportamento escolar, não é mais preciso ajoelhar no milho. Muito mais moderno do que isso, o seu próprio teclado agora tem pleno poder de castigar escritores amadores de plantão, através de um simples aviso: um choque nos dedos.
Corrigindo cada palavra errada, a tecnologia, que chega ao Brasil em menos de 30 dias, tem como objetivo reduzir o analfebetismo. A mecânica da correção, no entanto, não é tão simples como a minhoca vermelha sob as palavras. O choque disparado pelo teclado possui alguns níveis. Isso significa que se o erro for muito grotesco, a descarga elétrica será maior. E se o texto for recheado de vários erros grotescos, o sujeito poderá morrer eletrocutado.
A última frase foi dita pelo criador do teclado às gargalhadas, mas o tema atinges raízes mais profundas do que se imagina. Conhecer uma inovação moderna que corrige erros ortográficos significa analisar a própria educação. Em termos sociais, seria possível dizer que a única diferença entre o choque nos dedos e a palmatória nas mãos é a presença de uma autoridade. Em ambos os casos, o problema é resolvido pela consequência e não pela causa. Faltam questionamentos sobre as origens dos erros, sistemas eficazes de ensino e diretrizes que visem ao desenvolvimento de hábitos de estudo. Afinal, o aperfeiçoamento das faculdades físicas e intelectuais e morais do ser humano, como define o dicionário a palavra educação, não ocorre através de simples e doloridas descargas elétricas nos dedos.
De qualquer forma, ainda fica o deslumbramento de ver a civilização ultrapassando marcas inimagináveis na tecnologia. Quando pensa-se que não há mais nada que inventar, chega ao mundo o dispositivo que obriga os preguiçosos a checar melhor o que estão escrevendo.
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