Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entrega o milagre da devoção e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.
Carlos Drummond de Andrade
É com esse poema que eu me dou as boas-vindas de volta. O tempo, fatiado, escorre por entre as nossas mãos, deslizam chão abaixo e ainda viram para trás para nos mostrar a língua. Mas não me considero o tipo de ser humano que se cansa e entrega os pontos. Para qualquer leitor do Tem Disso Também?, entregar os pontos significa desperdiçar todas as oportunidades de tirar uma casquinha do que há de melhor na vida. É aí que tudo começa outra vez.
Falando em fatias e casquinhas, um cidadão australiano parece ter se dado mal por não saber como se fatia. Vendeu o carro por 30 mil, escondeu todo o dinheiro dentro do fogão e faliu. A esposa, que segundo ele não era muito chegada na cozinha, por acaso resolveu preaquecer o forno para assar uns nuggets. Após poucos minutos no quentinho do fogo, a mulher ficou sem os nuggets e o homem ficou sem a grana, que derreteu.
Derreteu como o tempo no quadro surrealista de Salvador Dali. Virou casquinhas e mostrou a língua, provando ser nada mais, nada menos, do que uma mentira de um homem casado. Dobrando-se e deformando-se com o calor do forno, mostrou que é perfeitamente maleável e que, quando não usado da maneira correta, acaba por virar apenas farelos. Farelos, pelo o que me lembro no momento, são legais apenas na história de João e Maria ou para fazer montinhos na mesa no primeiro encontro. Depois dele, vem, ou deveria vir, o casamento, onde o carro fica guardado na garagem e o dinheiro, de preferência em ambiente ameno, na sombra e fora do alcance de crianças. Em caso de contato com os olhos, a procedência é simples. A verdadeira sabedoria, nesse momento, é, em primeiro lugar, observar se o produto causa alergia ou irritação. Depois, só depois, decidir entre duas opções: enxaguar abundantemente ou guardar em uma prateleira própria e organizada, para que, ao pegá-lo de volta, não derrube os outros frascos, que irão estilhaçar no chão e escorrer. Escorrer. Escorrer.
E vai sobrar para a esposa limpar. Pode acreditar.
Mas, ainda me pergunto. Dinheiro escondido e ainda por cima torrado: tem disso também?

Nenhum comentário:
Postar um comentário
E você, o que diz?