quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

#4 Natal encorpado

Quais são seus planos para 2012? Malhar meia hora todos os dias? Ler mais livros sobre Filosofia? Dar mais atenção às causas sociais? Parar de fumar ou de beber? A solução para as promessas mal cumpridas nunca foi tão simples. É rápida, divertida e exige apenas custos com óleo, sal e, se preferir, azeite a gosto. Descubra como.

No dia 21 de Dezembro, férias e Natal são palavras que, como ímãs, unem-se desesperadamente. Mês das festas de fim de ano, é uma época em que geladeiras e armários são abastecidos às custas de mercados infrequentáveis, cartões de crédito devastados e sentimentos revolucionários de renovação do corpo e da alma.

Muito bem guardados e escondidos de filhos, sobrinhos e netos curiosos, deliciosos e suculentos pernis e lombos esperam o forno para o cardápio da ceia. Na grande noite, famílias reúnem-se à mesa para degustar pratos com gosto de Dezembro, esmigalhar farelos na toalha tão cuidadosamente engomada, pensar sobre solidariedade e assistir ao show do Roberto Carlos enquanto o relógio conta regressivamente as últimas energias de crianças exasperadas pelos presentes ganhados.

Por esses entre outros motivos, viradas de ano costumam ser uma orgia gastronômica, como uma espécie de consolo para as promessas que transformarão abdômens ainda em Janeiro. Esses rituais, no entanto, tornam-se ultrapassados depois de uma inovação feita na Holanda. Dois apresentadores do programa de TV 'Test Rabbits' participaram de uma degustação um tanto quanto diferente: provaram a carne um do outro. Dennis Storm e Valerio Zeno tiveram, cada um, pequenos pedaços de músculos retirados cirurgicamente da nádega esquerda e do abdômen. Os filés foram submetidos ao preparo de um chef e devorados pelo amigos, que mantiveram-se olhos nos olhos durante a refeição.

A ideia causou controvérsias no país e certamente revertérios em estômagos. A necessidade proteica do corpo humano de repente dota-se de um caráter animal e canibal. Simples pedaços de carne de evoluções de macacos passam a causar, ao mesmo tempo, ásco, cumplicidade e dinheiro. Provar o gosto das nágedas do parceiro em rede nacional transforma-se em uma poderosa fonte de renda, de audiência e de sorrisos para as câmeras.

Segundo os apresentadores, embora a sensação tivesse sido estranha, a cicatriz renderá boas histórias. Dois amigos lembrarão-se de que foram companheiros, de que provaram a mais inusitada ceia de Natal, de que receberam o ganha-pão do mês e de que não foram mais beijados pelas esposas. Esse é o verdadeiro sentimento natalino de solidariedade, em que comer uma barriga, além de rica em proteína, é uma prática de parceria e de multiculturalismo, digna de um ritual indígena.

Substitua agora mesmo os pernis e lombos por saborosos abdômens e nádegas, temperados com óleo, sal e azeite a gosto e regados a puras e verdadeiras uniões carnais à mesa. Adicione uma colher de velhas piadas do tio, meia xícara de latido crescente dos cachorros e uma lata de música da Globo condensada. Sirva ainda quente e ganhe notabilidade na mídia.



Degustar a nádega e a barriga do amigo: tem disso também?

Um comentário:

  1. acho que vou entrar nessa onda de natal sokidário e doar muitos quilos de pernil rsrsrsrsrsr

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