quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

#2 Na ponta da língua ou dos dedos?

Você precisa escrever um texto. Abre um novo arquivo do Word e começa a obra. Tecla sem parar, sob influências de uma inspiração divina e com a sensação de estar se superando nos vocabulários, conjunções, vírgulas e vozes passivas. Encaixa aquela palavra dificílima que acabou de aprender, utiliza metáforas, hipérboles e orações subordinadas como um poeta. De repente, olha para o computador e vê pequenas minhocas vermelhas flutuando sobre a tela, uma verdadeira denúncia de que você, entre outros equívocos, escreveu "ressucitou" em vez de "ressuscitou".

Como proceder para que erros como esse não aconteçam? Apelar para a ajuda de um dicionário? Contratar um professor particular de português? Parar de escrever para evitar uma humilhação em público?
Parece que especialistas solucionaram o problema. Em pleno século 21, muitos anos após o fim das mirabolantes técnicas de correção de comportamento escolar, não é mais preciso ajoelhar no milho. Muito mais moderno do que isso, o seu próprio teclado agora tem pleno poder de castigar escritores amadores de plantão, através de um simples aviso: um choque nos dedos.

Corrigindo cada palavra errada, a tecnologia, que chega ao Brasil em menos de 30 dias, tem como objetivo reduzir o analfebetismo. A mecânica da correção, no entanto, não é tão simples como a minhoca vermelha sob as palavras. O choque disparado pelo teclado possui alguns níveis. Isso significa que se o erro for muito grotesco, a descarga elétrica será maior. E se o texto for recheado de vários erros grotescos, o sujeito poderá morrer eletrocutado.

A última frase foi dita pelo criador do teclado às gargalhadas, mas o tema atinges raízes mais profundas do que se imagina. Conhecer uma inovação moderna que corrige erros ortográficos significa analisar a própria educação. Em termos sociais, seria possível dizer que a única diferença entre o choque nos dedos e a palmatória nas mãos é a presença de uma autoridade. Em ambos os casos, o problema é resolvido pela consequência e não pela causa. Faltam questionamentos sobre as origens dos erros, sistemas eficazes de ensino e diretrizes que visem ao desenvolvimento de hábitos de estudo. Afinal, o aperfeiçoamento das faculdades físicas e intelectuais e morais do ser humano, como define o dicionário a palavra educação, não ocorre através de simples e doloridas descargas elétricas nos dedos.

De qualquer forma, ainda fica o deslumbramento de ver a civilização ultrapassando marcas inimagináveis na tecnologia. Quando pensa-se que não há mais nada que inventar, chega ao mundo o dispositivo que obriga os preguiçosos a checar melhor o que estão escrevendo.


Teclado que dá choque: tem diço também? Ai!

2 comentários:

  1. Adorei!!!!!!! Uma análise brihante que nos alerta sobre os descaminhos da nossa sofrida educação brasileira!
    Tenho uma sugestão: encaminhar várias dessas máquinas para o Congresso Nacional hehehehe

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  2. muito bom!conheço algumas pessoas que iriam se dar muito mal com esse teclado rsrsrsrs

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